Estivesse vivo, UMBERTO ECO certamente consideraria a necessidade de reescrever parte de sua seminal obra “Os Limites da Intepretação”, para analisar os graves efeitos que envolvem a aplicação da Inteligência Artificial  ao mundo dos livros digitais. Segundo reportagem do jornal “O Globo”, edição de 28/7/2026, “Conversar com um livro durante a leitura não é mais ficção científica. Uma nova geração de ferramentas de inteligência artificial (IA) permite aos leitores fazer perguntas sobre uma obra e receber respostas imediatas”. 

Trata-se, pois, de um intérprete artificial a quem o leitor poderá se dirigir toda vez em que se deparar com qualquer dificuldade de interpretação. O olho perscrutar do leitor terá agora uma companhia. Lá estará o intérprete artificial para “ajudá-lo” a compreender livros tradicionalmente herméticos como O Homem sem Qualidades, de ROBERT MUSIL,  A Montanha Mágica, de THOMAS MANN, o Ensaio sobre a Cegueira, de SARAMAGO, ou difíceis obras jurídicas como a Teoria Pura do Direito, de KELSEN, e mesmo em face de escritos filosóficos de acentuada complexidade como os de KANT ou de HEIDEGGER o leitor jamais se sentirá sozinho na aventura da interpretação. Se, como dizia  ECO,  que “É através de processos de interpretação que, cognitivamente, construímos mundos, atuais e possíveis”, agora o leitor os poderá construir na companhia do intérprete artificial.

Mas não estará a  Inteligência Artificial mais uma vez a se utilizar do estratagema de esconder a sua real intenção, ao criar, não um intérprete, mas um verdadeiro autor? Um outro autor. Um “duplo”, mas não um duplo do autor, senão que do próprio leitor, algo semelhante ao que DOSTOIEVSKI pensou quando escreveu seu segundo romance, “O Duplo”, publicado em 1846, em que narra a história de Goliádkin, um funcionário público cuja vida é de repente invadida e controlada por alguém – seu duplo -, a ponto de não poder saber onde termina a realidade e em que momento as alucinações tomam conta de sua vida. Com o uso do intérprete artificial, o leitor se sentirá como Goliádkin em face de um duplo,  porque não lhe será possível distinguir se aquilo que está a interpretar é mesmo o que o Autor da obra escreveu, ou se não não terá sido uma criação de seu duplo enquanto leitor.

Uma coisa é certa: o leitor acabará por se transformar em um homem angustiado, como DOSTOIEVSKI bem o caracteriza.