Vejamos o que disse TOSTOI em “A Cédula Falsa”, uma de suas mais conhecidas novelas, escrita no intervalo entre 1899 e 1903, terminada em 1904 e publicada postumamente em 1911, um ano, pois, após a morte do autor. Em um diálogo travado entre um juiz e um preso, aquele se vê surpreendido quando o preso lhe diz que todos os homens são irmãos:
“(…) – Eu também sou ter irmão? / – É claro. / – Como? Sou teu irmão e te condeno ao presídio? – Por incompreensão. / – Que é que não compreendo / – Se julga, é porque não compreende”.
Vamos agora a ORTEGA Y GASSET (1883-1955), ainda hoje um dos filósofos mais importantes da Espanha, sempre lembrado pela frase “Eu sou eu e minha circunstância”. No prefácio de suas obras completas, publicadas em 1932, ORTEGA Y GASSET escreveu: “(…) o homem generoso, cuja vida vive de raízes profundas, sente o afã de penetrar noutras vidas, bem no fundo delas, em sua verdade oculta – de entendê-las e não de julgá-las. Aquele que julga não entende. Para ser juiz é preciso fazer previamente a heroica renúncia a entender o caso que se apresenta a juízo na inesgotável realidade de seu conteúdo humano. A justiça mecaniza, falsifica o juízo para fazer possível a sentença. (…)”.
Então, como os processualistas podem querer que a sentença seja proferida apenas quando o juiz compreendeu a lide?
