O leitor, ao se deparar com os seguintes versos: “Não sou nada. / Nunca serei nada. / Não posso querer ser nada. / À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo. (…)”, logo reconhecerá tratar-se do famoso poema “Tabacaria”, do genial FERNANDO PESSOA por seu heterônimo ÁLVARO DE CAMPOS. “(…) Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou? / Ser o que penso? / Mas penso ser tanta coisa! (…)”.
Mas se ouvir esse mesmo poema pela voz do famoso locutor brasileiro, MOACYR RAMOS CALHELHA (1919-2002), terá então duas certezas: a de que a sensibilidade da poesia depende necessariamente de alguém que a possa declamar com uma voz que é própria apenas dos grandes locutores, e os poetas em geral não declamam bem suas poesias; a segunda certeza é a de que, ouvindo a declamação de RAMOS CALHELHA do poema “Tabacaria”, perceberá mistérios que antes não pudera perceber, em especial na seguinte parte: “(…) Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta. / Olhou-o com o desconforto da cabeça mal voltada / E com o desconforto da alma mal-entendendo. / Ele morrerá e eu morrerei. / Ele deixará a tabuleta, eu deixarei versos. / A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também. / Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta, / E a língua em que foram escritos os versos. / Morrerá depois o planeta girante em que tudo isso seu deu. / Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente / Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas. / Sempre uma coisa defronte da outra, / Sempre uma coisa tão inútil como a outra, / Sempre o impossível tão estúpido como o real, (…)”.
O leitor tem acesso à essa preciosa declamação de RAMOS CALHELHA se consultar o Youtube no canal “SARSA – Temas Urbanil”.
