Há aforismos que, criados por uma feliz coincidência gerada por sons parecidos entre palavras em uma determinada língua, acabam por revelar algo para além de seu sentido literal. É o que ocorre em especial com o aforismo: “Tradutorre, traditore”, com o que se costuma dizer que o tradutor (“tradutorre”) é sempre um traidor (“traditore”), na medida em que, ao traduzir um texto qualquer, acaba por produzir uma outra obra, diversa daquela que lhe incumbia apenas traduzir. Mas o tradutor pode em sua defesa objetar que, como observou o filósofo WALTER BENJAMIN, as traduções dão uma sobrevida às obras, não apenas por permitir que falantes de uma outra língua, diversa daquela em que originalmente escrito o texto, possam lê-lo, mas também porque a tradução pode revelar aspectos que, na língua original, não haviam sido percebidos, fenômeno que, quem sabe, a Semiologia poderia melhor esclarecer. De todo o modo, todo tradutor deveria, à maneira de NELSON RODRIGUES, desculpar-se perante seu leitor, dizendo-lhe antes de qualquer coisa: “Perdoa-me por me traíres”.

É disso, em essência, de que trata o maravilhoso texto do compositor e crítico literário e musicai, ARTHUR NESTROVSKI, sob o título “Tradução Literária é uma Arte”, publicado hoje no site Uol (uol.com.br), em que trata das sutilezas envolvidas na tradução literária, e que permanecem muitas vezes ocultas, até serem reveladas pela tradução literária.

E o que é mais interessante no texto de NESTROVSKI diz respeito à Inteligência Artificial. Sim, necessitávamos da Inteligência Artificial para que pudéssemos perceber a importância da tradução literária e do papel do tradutor na descoberta dos vários sentidos que as palavras revelam quando vertidas a uma outra língua. Para comprovar o que afirma, NESTROVSKI, valeu-se de uma passagem inicial de “A Montanha Mágica”, livro de THOMAS MANN, em que o narrador está a descrever a viagem de trem entre a Alemanha e a Suíça e das sensações que o invadem, quando lhe é possível compreender a importância da passagem do tempo. Traduzido por meio da Inteligência Artificial, esse trecho inicial de “A Montanha Mágica” surge sob uma estrutura que não permite ao leitor da língua portuguesa alcançar o verdadeiro sentido filosófico que THOMAS MANN queria enfatizar. Mas a sensação é outra quando o leitor percorre a tradução feita por HERBERT CARO em 1952, como diz NESTROVSKI: “(…) as palavras agora fazem sentido. Uma viagem nos faz esquecer logo a vida que levamos; a mudança no espaço tem efeito semelhante à da passagem do tempo. A inteligência artificial fez o que pôde. Mas não tinha com dar conta da riqueza vocabular e gramatical de um dos maiores estilistas da língua alemã”. 

Não é que a tradução feita pela Inteligência Artificial não nos permita compreender o sentido de uma obra literária. Mas lhe falta alguma coisa, ou melhor, falta-lhe a essência, porque ela somente pode operar como uma estrutura pobre de significante e significado. É o tradutor, apenas ele, quem trai o que vai pela alma do autor da obra, revelando-nos esses mistérios. Perdoemos o tradutor, porque ele sabe bem o que faz!