O intelectual desapareceu. Escreve-se muito hoje, mas não há mais o intelectual segundo aquilo que especialmente o caracterizava: a lucidez e a coragem. Predicados que sobejavam em SARTRE, como ele demonstrou em diversos episódios, como a questão da Argélia, então sob o jugo de uma colonizadora França.
SARTRE pensava o mundo e o via como raros, raríssimos o podiam ver. Ou melhor, ele podia entrever. E entreviu o que aconteceria na França em maio de 1968, quando as ruas foram invadidas por insatisfeitos e abandonados, que aliás eram muitos àquela atura. Tantos quantos são agora, assolada a França por protestos que não parecem ter fim. Conquanto diversos os contextos, há importantes semelhanças entre os protestos de maio de 1968 e os que estão a ocorrer agora na França.
Diversamente de muitos filósofos da época, como RAYMOND ARON, para quem os protestos de maio de 1968 não passavam de um “carnaval estudantil”, SARTRE compreendeu bem o que conduzia aquelas pessoas às ruas e aos protestos. Ele que, em 1938, ao escrever “A Náusea”, percebera como as pessoas podem ser acometidas de um mal-estar físico ou moral, e como para lidar com isso é necessário ter em conta a ideia de que as coisas simplesmente estão no mundo, que elas não possuem um razão essencial para existirem, porque envolvidas em uma eterna contingência, e que depende de nossa ação para que essas coisas sigam um determinado rumo. SARTRE, que também havia escrito “O Ser e o Nada”, desenvolvendo o que viria a se constituir no Existencialismo francês, algo diverso como teoria daquele Existencialismo que HEIDEGGER criara ao escrever “O Ser e o Tempo”. Mas nas obras dos dois filósofos a liberdade do ser-humano constitui o valor supremo, apenas que em SARTRE essa liberdade deve conduzir a uma ação humana, ao “engajamento” das pessoas em face de uma determinada causa política, como aquela que leva as pessoas aos protestos.
Os movimentos de 1968 e aqueles que, iniciados em França, estão agora a alcançar outros países da Europa ocidental, têm um mesma força motriz: que é a insatisfação daqueles que aos olhos do Estado nada representam, e que exercem a sua legítima liberdade para que as coisas mudem.
Mas há uma importante diferença entre maio de 1968 e os dias atuais: falta-nos SARTRE.
