Vamos para fora do mundo do Direito, que é sempre de lá que vem a explicação daquilo que não podem perceber os operadores jurídicos. Vamos assim à Literatura, mais precisamente a um poeta, a um dos melhores poetas franceses de todos os tempos. Mais que um poeta, um pensador: PAUL VALÉRY (1871-1945), que observou: “(…) Não há uma palavra que possamos compreender se vamos ao fundo. (…) Quem se apressa compreendeu (…)”.

Está aí a explicação do porquê o processo judicial precisa ser ágil. Não porque exista sempre um risco de que as coisas pereçam. Na maioria das vezes, esperam os litigantes por uma solução e durante essa espera nada lhes acontece, além daquilo que já suportam em razão da lide, de maneira que o juiz demorar um certo tempo para dizer quem tem razão não modifica em nada a ordem das coisas.

O processo judicial precisa ser ágil para que o juiz possa se apressar com sua interpretação, porque se demora muito começa a compreender mais a fundo tudo o que lhe está à volta, inclusive a sua própria condição de juiz, questionando se não estará a fazer tudo o que não é justiça. A mando de um poder estatal com o qual não concorda. Quantas vezes o juiz não se depara com uma norma lega para lá de injusta, mas que acaba por aplicar, exatamente porque tem o juiz pressa por decidir, porque essa pressa lhe é imposta de fora para dentro. Pela lei. Quanto mais rápido decidir, melhor. Assim não compreende para qual razão a norma legal existe.

Se tivesse tempo, o juiz compreenderia, e isso não é bom. Como diz VALÉRY, se vamos ao fundos das coisas, da linguagem, das palavras, enfim de tudo, começamos a compreender. Melhor não compreender. Melhor que o juiz não compreenda. Assim o Estado continua a existir desde tempos imemoriais. E espera que assim continue. E para isso é necessário que os juízes continuem a existir, e que se apressem cada vez por decidirem. Pode-se mesmo dizer que a existência da justiça estatal, nos moldes em que a conhecemos, depende da pressa do juiz no interpretar a lei, porque se o juiz nunca vai e nem pode ir ao fundo das coisas, melhor para quem cria e põe as normas legais em funcionamento.