Muitos se lembram da conhecida frase do filósofo espanhol, ORTEGA Y GASSET, “Eu sou eu e minha circunstância”, que, aliás, poderia ser o mote dos existencialistas, sejam daqueles que têm HEIDEGGER como seu deus, sejam também dos sartrianos. Lembrar-se-á o leitor de que, no contexto dessa frase, estabelecemos aqui uma relação entre ORTEGA Y GASSET e FERNANDO PESSOA. Pois bem, vamos agora fixar uma outra interessante relação do mesmo ORTEGA Y GASSET, mas agora com EÇA DE QUEIROZ. O pano de fundo, a mesma frase, mas sob outra variação.
Como registrou JAYME BATALHA REIS, que mantivera longa relação de amizade com EÇA DE QUEIROZ, iniciada ao tempo em que o autor de “O Crime do Padre Amaro” era ainda um ilustre desconhecido das Letras e que começava seus passos escrevendo crônicas e contas que viriam a ser publicadas pelo jornal “Gazeta de Portugal”, o que ocorreu por volta de 1860, àquela altura, pois, EÇA frequentemente visitava BATALHA REIS em sua residência e em determinada ocasião, para justificar ao amigo de onde vinha a sua fértil imaginação, saiu-se com a seguinte frase: “Sou eu e os meus abutres: Vimos criar, devorando cadáveres!”.
Note o leitor que essa frase foi dita por EÇA em 1860, muito antes, portanto, do momento em que ORTEGA Y GASSET, em 1914, viria a formular a frase que ficou para a história. A frase de EÇA perdeu-se nos escaninhos da história, e mesmo entre os ecianos são poucos os que a conhecem.
Mas não há dúvida da relação muito próxima que se pode estabelecer entre o que pensou e disse EÇA e aquilo que pensou e escreveu ORTEGA. Devemos ao realismo de EÇA, que já à altura colocava sua cabeça para fora, a revelação da verdade, de resto muito a gosto dos existencialistas: a de que as circunstâncias de uma vida são muitas vezes seus verdadeiros abutres.
