Era algo previsível que, no congresso jurídico que se realizou por estes dias na terra de Camões, viesse a ser convidado como palestrante alguém que pensa que os males, todos os males da nossa democracia não provêm senão que das redes sociais e da incômoda liberdade com que elas contam. Há mesmo uma sanha entre alguns juristas brasileiros e de muita gente no poder contra as redes sociais.
Não foi surpresa, portanto, que os organizadores do congresso jurídico escolhessem alguém que tenha a firme crença de que as “redes sociais são inimigas da verdade e da confiança”. Assim, nada mais natural que convidassem um jornalista para tentar convencer o público do congresso jurídico de que, se não é possível exterminar as redes sociais, ao menos se lhes imponham uma regulação tão rigorosa que, na prática, elimine toda a liberdade de que gozam as redes sociais, tarefa, aliás, que o governo brasileiro tem assumido com proficiência, como disse o palestrante, que, a propósito, é um jornalista de profissão.
Para o famoso conferencista, o jornalismo tradicional, este sim, é o único e legítimo defensor da verdade, como se a verdade não existisse senão quando os jornais a revelam. As redes sociais, segundo ele, apenas tratam de deturpar a verdade.
Seria de se esperar que os organizadores do congresso jurídico pensassem em fazer o contraponto, convidando algum especialista que pudesse dizer o contrário, ou seja, que são os jornais que desde sempre manipulam a verdade, e que as redes sociais é que têm permitido que a opinião pública compare informações e que, em as comparando, possa sozinha saber o que é verdade e o que não é, sem que esteja submetida a filtros que os jornais gostam de impor.
Poderiam os organizadores do congresso jurídico ter convidado um outro jornalista e também norte-americano, e bastante famoso: GAY TALESE que, em 1969, publicou uma verdadeira obra-prima. Refiro-me ao livro “The Kingdom and the Power” (lançado no Brasil com o título “O Reino e o Poder). Nesse livro, TALESE narra a interessante história do jornal “New York Times” desde a sua fundação, contando ao leitor como as intrigas envolvendo os editores do jornal e a família do proprietário fizeram muitas vezes como a “verdade” surgisse totalmente manipulada nas páginas do “New York Times”. Algo parecido com que o palestrante diz que acontece agora com as redes sociais.
Mas, pensando bem, considerando o público que esteve presente no referido congresso jurídico, GAY TALESE receberia uma colossal vaia.
