Um repórter encontrou uma alta autoridade e a ela indagou o seguinte:
“- Que pensa Vossa Excelência da nossa crise de justiça? Qual lhe parece ser a principal causa dessa crise?”.
A alta autoridade respondeu com desenvoltura:
” – A nossa crise de justiça provém de muita coisa, mas sobretudo de um excesso de civilização. É por isso que existe muita judicialização. Reconheço que há a judicialização legítima. Mas tem aquela que eu chamo de ‘judicialização de pescaria’. A pessoa entra com a ação para ver se consegue alguma vantagem, mas sabe não possuir direito algum. Precisamos urgentemente fazer um esforço em muitas áreas para que tenhamos a ‘desjudicialização da vida”.
Não compreendendo bem o que significava “desjudicializar a vida”, não atinando também com a relação entre o excesso de civilização e a judicialização, o repórter formulou uma nova pergunta à autoridade:
“- Mas, Excelência, não é bom para o país que tenhamos alcançado um determinado grau de civilização, o que é comprovado pelo grande número de pessoas que, confiando na Justiça, ajuízam processos? A vida não está melhor assim, “judicializada”?.
“Caro repórter, você talvez não tenha conhecimento de um precioso artigo escrito pelo velho ENGELS em 1887, complementado por KARL KAUSTK, com o título “Socialismo Jurídico. Àquela altura, o jurista austríaco, ANTON MENGER acabava de publicar o livro “O Direito ao Produto Integral do Trabalho”, no qual, sobre afirmar que MARX, ao construir a sua teoria da “mais-valia” cometera plágio de autores socialistas, sustentava a posição de que o Direito é fundamental para dar aos trabalhadores os direitos que a lei, ela própria, reconhece. Mas apenas esses direitos, que não são senão aqueles que o poder reconhece como verdadeiros”.
“Mas então Excelência, isso não vem a confirmar que é melhor que a vida fique cada vez mais ‘judicializada’, porque, quem sabe, o juiz, interpretando a lei, não crie direitos para além daqueles que a lei criou, e isso faz melhor a vida?”.
“É exatamente esse o problema. O juiz cria direitos e isso faz com que as pessoas acreditem que o processo pode melhorar a vida delas. Isso enfraquece o Estado. Quanto menos ‘judicialização’, melhor”.
O repórter não tinha mais o que perguntar …
