Um pesquisador, o melhor de que dispunha o órgão governamental de pesquisas, foi convocado com urgência à sala de seu chefe, que logo tratou de expor a situação e o motivo da convocação.
O governo havia exigido que o órgão incumbido de pesquisas colocasse seu melhor pesquisador a campo para que indagasse das pessoas comuns o que elas queriam: se justiça de mais ou de menos? O chefe esclareceu a seu funcionário que o governo não dera mais detalhes dos objetivos da pesquisa.
Surpreso tanto pela escolha de seu nome, quanto pela pergunta que lhe caberia fazer a seus entrevistados, o pesquisador indagou a seu chefe: “Mas o governo quer saber se há justiça de mais, ou demais? O chefe demonstrou não compreender a questão, atribuindo-a a uma natureza espirituosa de seu funcionário, que ele, aliás, não conhecia.
O pesquisador então esclareceu que havia uma importante distinção entre “demais”, tudo junto, e “de mais” separado, e antes de se saber com precisão em que havia pensado o governo, não era possível colocar a pesquisa nas ruas, porque as respostas poderiam não levar a nenhuma conclusão segura.
“Demais”, disse o pesquisador, é utilizado quando se quer expressar a ideia de intensidade e que somente pode ser empregado ao lado de verbos, adjetivos e advérbios, enquanto “de mais”, conquanto também indique uma quantidade a mais, algo que está em excesso, é usado apenas ao lado de adjetivos.
Algo irritado, o chefe tratou de responder que, se justiça é um substantivo, a expressão a ser usada é “de mais”, com o que esperava dar por encerrada a discussão.
Ao que o pesquisador então obtemperou que “justiça” pode ser tanto um substantivo, tanto quanto pode ser um adjetivo, como se dá, por exemplo, quando se diz que o juiz decidiu com justiça, em que se está diante de um adjetivo, e que assim se poderia perguntar se o juiz não havia decidido com justiça demais.
Irritado com essa explicação e para a qual não dispunha de resposta, o chefe limitou-se a dizer a seu funcionário: “Não se preocupe com isso. Pergunte apenas às pessoas se elas querem uma justiça de mais ou de menos e registre as respostas, e se algum entrevistado mais abusado perguntar de que se justiça se está a cuidar, se de um substantivo ou de um adjetivo, responda que nem o governo sabe, e é precisamente por isso que está a perguntar às pessoas”.
