À porta do edifício do fórum, dois velhos advogados casualmente haviam se encontrado. Amigos de longa data, começaram na advocacia quase que ao mesmo tempo e tinham uma trajetória profissional bastante parecida, em que as mágoas e tristezas não haviam diminuído. Cumprimentaram-se efusivamente e logo iniciaram o diálogo que aqui se reproduz.

_ Cada vez está mais difícil advogar. Agora a concorrência é maior. Muitas faculdades despejam todos os anos no mercado novos advogados.

_ E isso tende a aumentar. Ouvi dizer que o governo, além de pretender autorizar mais faculdades de direito, quer reduzir o tempo do curso. Chegará uma hora em que, para cada habitante, haverá um advogado que o espera para ajuizar uma causa.

_ É um fenômeno irreversível esse. Mas quando reclamei da concorrência,  não era sobre isso que eu pensava. De resto, quando começamos a advogar, o número de advogados já era bastante expressivo e aumentava.

_ Mas então qual é a sua queixa acerca da concorrência?

_ Refiro-me aos advogados que, recém formados, assumem grandes causas, recebendo pomposos honorários, o que em nossa época era de todo inimaginável. Só os grandes causídicos, verdadeiros juristas, assumiam essas causas, porque nenhum cliente era louco o suficiente para confiar seu processo a um advogado recém formado.

_ Você está com razão. Tenho lido pelos jornais que advogados e advogadas, formados há pouquíssimo tempo, coisa de, no máximo cinco anos, são contratados por ricaços poderosos, e o jovem advogado, do dia para a noite, assume uma causa milionária. Agora mesmo os jornais noticiam que uma advogada, que era antes uma feliz dona de casa, foi contratada por um conhecido banqueiro, firmando com ele um contrato de honorários advocatícios da ordem de cento e vinte e cinco milhões. É verdade que o trabalho era complicado extenso, tantos são os problemas do banqueiro. Mas exatamente porque o trabalho era complicado é que a surpresa é ainda maior na contratação de uma inexperiente advogada.

_ Quem sabe se ela não já estava preparada para esse grande desafio? Talvez nós que tenhamos dormido?

_ Pode ser. Quem sabe a advogada, antes mesmo de começar o curso de direito, não tivesse feito pela Internet cursos de como advogar para banqueiros. Hoje tem de tudo na “Internet”, inclusive cursos dessa natureza.

_ Sempre ouço de colegas mais antigos que a advocacia é uma profissão ingrata, porque a humildade é o preço que se paga pela sobrevivência. De fato, o advogado precisa, humildemente,  submeter-se até mesmo ao porteiro do prédio do fórum. Imagina o que não é obrigado a fazer perante o juiz? E tudo isso para viver com uma modesta renda.

_ Caro amigo, talvez tenhamos escolhido a profissão errada.

_ Ou não tenhamos casado com a pessoa certa …