Essa história ocorreu na Rússia ao tempo de NIKOLAI LESKOV (1831-1895), primoroso escritor que a poderia ter contado, se dela tivesse tido conhecimento. Mas a contemos nós, embora não a possamos fazer com o brilho de LESKOV, quem, segundo WALTER BENJAMIN, personificava o verdadeiro papel do “Narrador”, um dos maiores da história da literatura moderna.

Durante uma convenção cuja plateia era formada apenas por juízes, um alto magistrado, que na altura presidia um importante tribunal daquele país, assumiu a palavra para vivamente demonstrar a sua completa insatisfação com um parte da magistratura que, segundo lhe parecia, não estava perfilhada com a causa do Estado. De maneira provocativa, o  alto magistrado chamava a esses juízes “azuis”, como uma forma de os distinguir daqueles juízes que, a seu sentir, encarnavam a verdadeira alma russa, os “juízes vermelhos”, dentre os quais ele dizia pertencer.

O que distinguia os “juízes azuis” dos juízes vermelhos”, enfatizava o alto magistrado durante a sua peroração,  era o fato de que estes – os “juízes azuis” –  moviam-se conforme “interesses”, enquanto os “juízes vermelhos” estavam sempre imbuídos  de  “causas”. Embora não cuidasse explicar o que entendia por “interesses” e “causas”, nem mesmo o motivo de ter escolhido aquelas cores, o fato é que a alta autoridade contagiou os juízes presentes, levando-os a supor, como é natural ocorrer,  estivessem todos ao lado dos bons juízes. O inferno, já dizia SARTRE, são os outros.

Importante observar que, àquele tempo, o país vivia sob uma intensa polarização, que havia aumentado depois que o governo colocara em prática uma reforma trabalhista, o que foi visto por alguns como um aceno ao capitalismo. Outros viam a mesma reforma como uma possibilidade de o Estado diminuir a taxa de desemprego, flexibilizando as relações trabalhistas.

Juristas e filósofos foram desde logo encarregados de estudarem profundamente a relação que aquele alto magistrado estabelecera entre as cores e os juízes. Houve mesmo quem lembrasse de GOETHE e de sua Teoria das Cores para tentar explicar a razão pela qual alguns magistrados são “azuis”, enquanto outros são “vermelhos”, e até hoje o tema é objeto de acirrada discussão nos tribunais, que, para evitarem problemas, proibiram o uso pelos magistrados das referidas cores.