Sabe-se quão difícil e torturante é, para os jornalistas, obedecerem ao limite de espaço que o jornal lhes impõe para a publicação de um artigo. Mas tão ou mais difícil e torturante é para eles o transformarem em uma linguagem popular aquilo que um filósofo terá escrito, sobretudo quando se trata de um ensaio que, por sua natureza, é recheado de contradições, que, aliás, formam a essência desse tipo de trabalho acadêmico. Sob esse enfoque, não há dúvida de que o professor e jornalista, EDUARDO CESAR MAIA, conseguiu superar tais desafios, produzindo um texto em que leva ao leitor de seu jornal (“O Estado de São Paulo”), em uma linguagem acessível, o conhecimento do que forma a essência do ensaio escrito em 1925 por ORTEGA Y GASSET (1883-1955), sob o título “La Deshumanización del Arte” (em português, “A Desumanização da Arte)”, em que o genial filósofo espanhol investiga as razões pelas quais a “arte nova” (aquela produzida no início do século vinte) seria inevitavelmente impopular, ou mesmo antipopular, por razões que ORTEGA Y GASSET enumera e detalha, e que EDUARDO CESAR MAIA brilhantemente resumiu ao leitor.
Talvez o único reparo que se possa fazer ao texto de EDUARDO CESAR MAIA esteja no fato de não ter ele feito observar ao leitor a especial perspectiva de análise de que se valera ORTEGA Y GASSET, e que o próprio autor de “A Rebelião das Massas” sublinhou no início de seu ensaio, quando disse que estava a seguir a mesma perspectiva de análise de JEAN-MARIE GUYAU, filósofo e poeta francês, que, ao escrever o livro “A Arte sob o Ponto de Vista Sociológico”, publicado postumamente em 1889, tivera por objetivo demonstrar que a arte podia ser analisada enquanto produtora de efeitos na sociedade, adotando uma perspectiva sociológica, o que àquela altura, e ainda ao tempo em que ORTEGA Y GASSET escreveu seu ensaio, era algo inédito. Mudava-se o eixo de análise da arte, até então concentrado no plano estético, fazendo surgir um novo método de exame, em que a sociologia era chamada a compreender como a sociedade via a arte.
O ensaio de ORTEGA Y GASSET, com efeito, trata da “arte nova” encarando-a sob uma perspectiva exclusivamente sociológica, como ele quis deixar claro quando, com certa ironia, fala na necessidade de que se coloquem “umas gotas de fenomenologia”, como fez, com grande engenho ao exemplificar como um mesmo fato (uma mulher que, doente, agoniza em seu quarto, no qual estão presentes seu marido, um jornalista e um pintor), pode revelar dimensões de realidade diversas, conforme quem o esteja vendo. Ao final desse capítulo, ORTEGA Y GASSET observa que, dentre as realidades que integram o mundo, estão as nossas ideias: “Em vez de ser a ideia o instrumento com que pensamos um objeto, fazemo-la objeto e término de nosso pensamento”. E, pois, como essas ideias não são, elas próprias, a realidade, senão que uma visão a mais dela.
Mas não há dúvida de que o leitor encontrará no texto de EDUARDO CESAR MAIA o mesmo encanto que encontrará se se dispuser a ler o texto original de ORTEGA Y GASSET. Quem sabe se os nossos jornais não estão a perceber como podem recuperar a atenção dos leitores, dando-lhes textos com essa qualidade, em moldes semelhantes àqueles que ocupavam as páginas da extinta Revista Manchete, quando essa revista se dedicava a publicar maravilhosos ensaios, reunidos alguns deles no livro organizado por HELOISA SEIXAS, “As Obras-primas que poucos leram”.