Correrão amanhã, se as chuvas o permitirem, as eleições presenciais em Portugal. Será o segundo turno. As autoridades portuguesas preocupam-se, porque são torrenciais as chuvas e isso pode desestimular ou impedir o leitor de sufragar seu voto. Chegou-se mesmo a pensar-se no adiamento das eleições, talvez com o receio das autoridades de que pudesse ocorrer aquilo que a ficção de SARAMAGO produziu em o “Ensaio sobre a Lucidez”, que é de 2004. Mas as eleições foram mantidas.
Lembrará o leitor (e também o eleitor) que, nessa obra, SARAMAGO fala de uma cidade cujas eleições são marcadas por uma chuva que, por sua intensidade, mantém os eleitores em casa durante toda a manhã. As autoridades preocupam-se a princípio com a abstenção, mas como à tarde a chuva diminui, os eleitores surgem, e com os votos surge a surpresa: setenta por cento dos votos são em branco, número que é ainda maior na semana seguinte, quando uma nova eleição ocorre.
Nesse livro, SARAMAGO trata, no plano da ficção, de como os sistemas políticos democráticos são frágeis e como estão expostos a efeitos de todo imprevisíveis, produzidos, por exemplo, por uma chuva mais intensa, e de como o leitor reage diante disso.
Até este momento, pelo que dizem as pesquisas, não há qualquer chance de a vida poder imitar a ficção de SARAMAGO, não ao menos quanto ao resultado das eleições presidenciais, mas não se pode afastar a coincidência com o enredo de “O Ensaio sobre a Lucidez”.